terça-feira, 3 de novembro de 2026

Unido ao todo

Aceita que a alma é uma com o todo que dói menos


É segunda poética...ou não(hoje é terça).Meio que não queria perder o dia de finados


Voz do Infinito

(Augusto dos Anjos)

1

No excêntrico labor das minhas normas

Na Terra, muita vez me consumia

Perquirindo nas leis da Biologia

As expressões orgânicas das formas.


O fenômeno apenas, porque o fundo

Do númeno às eternas rutilâncias,

Eram partes do Todo nas Substâncias

Desde o estado prodrômico do mundo.


Com o espírito absconso em paroxismos,

No rubro incêndio de batalha acesa,

Via Deus adstrito à Natureza,

Deus era a lei de eternos transformismos.


Concepção panteística, englobando

As substâncias todas na Unidade,

Perpetuando-se em continuidade,

A essência onicriadora reformando.


O corpo, desde o embrião inicial,

Era um mero atavismo revivendo;

A alma era a molécula, sofrendo,

Afastada do Todo Universal;


Dominava-me todo o medo horrível,

Do meu viver, que eu via transtornado:

Eu era um átomo individuado

Em cerebralidade putrescível.


A luz dessa dourada ignorância,

E com certezas lógicas, numéricas,

Notava as pestilências cadavéricas

Iguais à carne Angélica da infância,


A sutilez do arminho que se veste,

A coroa aromática das flores,

Irmanadas aos pútridos fedores

De emanações pestíferas da peste!


Extravagância e excesso jamais visto,

De ideia que esteriliza e desensina,

Loucura que igualava Messalina

A pureza lirial da Mãe do Cristo.


Assim vivi na presunção que via,

Dos cumes da Ciência e do saber,

Os princípios genéricos do ser,

No pantanal da lama em que eu vivia.


Vi, porém, a matéria apodrecer,

E na individualidade indivisível

Ouvi a voz esplêndida e terrível

Da luz, na luz etérica a dizer:


2

"Louco, que emerges de apodrecimentos,

Alma pobre, esquelético fantasma

Que gastaste a energia do teu plasma

Em combates estéreis, famulentos...


Em teus dias inúteis, foste apenas

Um corvo ou sanguessuga de defuntos,

Vendo somente a cárie dos conjuntos,

Entre as sombras das lágrimas terrenas.


Vias os teus iguais, iguais aos odres

Onde se guarda o fragmento imundo.

De todo o esterco que apavora o mundo

E os tóxicos letais dos corpos podres.


E tanto viste os corpos e as matérias

No esterquilínio generalizados.

E os instintos hidrófobos, danados,

Em meio de excrescências e misérias


Que corrompeste a íntima saúde

Da tua alma cegada de amargores,

Que na Terra não viu os esplendores

E as ignívomas luzes da virtude.


Olhos cegos às chamas da bondade

De Deus e à divina misericórdia,

Que espalha o bem e as auras da concórdia

No coração de toda a Humanidade.


Descansa, agora, vibrião das ruínas.

Esquece o verme, as carnes, os estrumes.

Retempera-te em meio dos perfumes

Cantando a luz das amplidões divinas."

3

Calou-se a voz. E sufocando gritos,

Filhos do pranto que me espedaçava,

Reconheci que a vida continuava

Infinita, em eternos infinitos! 



Acima temos a historia sobre a visão que o autor tinha em vida.Um acadêmico de mão-cheia que carregava consigo um terror em cima da limitação quanto a ligação da molécula com o Todo

Podemos ver na literalidade,com as células sendo material literal,bem como a figurada,com ele sendo um nada diante do Tudo.Ele,que encarava a pele da criança e a do cadaver,sentia o contraste insistente.temos pequenos trechos indicando como ele deixou de ver sentido a educação das virtudes e pratica do bem ao não haver importância

Tentou ser arrogante com o que sabia e via,com o que era concreto.Entretanto,pesava no peito saber o que era perecível e o eterno,algo que não compreendia

Diante a morte e a consciência não existe argumento.Seu conhecimento material não o tornava maior ou menor que os demais,apenas chapa com orgulho,mas não resolve a doença da alma

Ele aprende e pratica o que antes evitava,por isso mesmo sente que pode professar sua falha e a solução.Não precisou de uma grande iluminação e sua aparência virar um ser de luz,apenas fazer o que poderia ter feito em carne

Nenhum comentário:

Postar um comentário