segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Porta do paraíso

É segunda poética


Quadras de um poeta morto 

(Antônio Nobre)

Coração, não vos canseis

De bater... que importa lá?

Porque os amores fiéis,

Nem a morte os vencerá.


Ó figuras de velhinhos

Que andais dormitando ao léu!

Como são belos os Linhos

Que vos esperam no Céu!


Dizem que os mortos não voltam...

Voltam sim. E por que não?

Os corpos daí nos soltam,

Como às aves o alçapão.


Nem gritos e nem cantigas

Entre vós que à noite andais;

As almas das raparigas

Inda sonham nos choupais.


Nas grandes mansões da morte

Inda há romance e noivados,

Venturas da boa sorte,

Corações despedaçados.


Quem riu ontem, quem ri hoje,

Nem sempre poderá rir...

Um dia o riso lhe foge,

Sem que o veja escapulir.


Riquezas, que valem elas

Se estão na sombra ou sem luz?

Tesouro são as estrelas

Da bondade de Jesus.


Pode-se amar o veludo

De uns olhos e os brilhos seus,

Porém, acima de tudo

Devemos amar a Deus.


Vós que amais a luz da Lua,

De vossa alma abri as portas

Para. os fantasmas da rua,

Que choram nas horas mortas.


Pensei que a. morte era o fim

Das ânsias do coração;

Contudo, não é assim...

Nem pó e nem solidão.


As vezes acham-se fojos

Onde há música e festins,

E há muitos cardos e tojos

Entre as flores dos jardins.


Se eu pudesse, estenderia

Minhas capas de luar,

Sobre os filhos da agonia

Que andam no mundo a penar.


A morte só pode ser

A vida risonha e pura,

Para quem a padecer

Vive aí na sepultura.


Mal vais, se vais caminhando

Na ambição de ouro e glória;

Nesse mundo miserando

Toda ventura é ilusória.


Chorai! chorai orfãozinhos,

Vossas dores amargosas:

Achareis noutros caminhos

As vossas mães extremosas.


Deixa cantar, ó menina,

Teu coração sonhador...

No sepulcro não termina

O novelário do amor.


Um anjo cheio de encanto

Vive sempre com quem chora,

Guardando as gotas de pranto

Numa urna cor da aurora.


No Universo há céus profundos,

Cheios de vida e esplendor,

Um céu é um ninho de mundos,

Um mundo é um ninho de amor.


A caridade é a beleza

De um divino plenhlúnio,

Luz que se estende à pobreza,

Na escuridão do infortúnio.


Aos mendigos desprezados

Não ridicularizeis,

São senhores despojados

Dos seus tesouros de reis.


Aqui, a alma inda espera

O alguém que na Terra amou,

O raio de primavera

Que aí jamais encontrou.


Há quem faça aí mil contas,

Que os interesses resuma,

Mas morrem cabeças tontas,

Sem fazer conta nenhuma.


Tecei sonhos, fiandeiras,

Oh! almas enamoradas,

Vivei aí nas clareiras

De luzes alcandoradas.


Ah! que sinto aqui saudades

Das noites de São João,

Sonho, estrelas, claridades,

Cantigas do coração.


Na minha vida de agora

Não canto as festas louçãs,

Naquelas toadas de outrora

As moçoilas coimbrãs.


Acompanha-me a tristeza

Das saudades, por meu mal;

Minha terra portuguesa! ...

Meu querido Portugal! ...



Neste texto temos outra poesia sobre a morte

Em um ponto fala de idosos e casais apaixonados,sempre a fazer promessas do futuro.A morte é sempre separação temporária e não lamento eterno.O que parecia perpetuo é apenas oferta de reflexões sobre a vida que temos

Em outro compara as riquezas ilusórias da matéria com o sofrimento que tantos dramatizam,com este ultimo sendo a verdadeira gloria.Geralmente se louva e respeita o brilho do luxo,sem saber que uma alma sendo forjada pode ser ainda mais bela do que o ouro

Não poupa símbolos grandiosos de estrelas e do universo para falar da grandeza das virtudes e a imortalidade da alma.O autor não perdeu a chance de mencionar toda caminhada da alma,de como a maior,mais distante e complexa seria mero comparativo

Termina falando de tempo e das saudades da matéria,de tudo que viveu e quem conheceu.Ele não esta desprendido,ainda é muito humano,tanto quanto nós todos,ate deixa claro que não é mais a mesma pessoa e fala exemplos dessa diferença,mas ainda tem laços a lhe dar forças

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